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terça-feira, 9 de outubro de 2012

domingo, 23 de setembro de 2012



  
 Singin' in the rain

 Euterpe e Melpômene


  
      Não sei se foi a memória, indo fundo em seu prodígio, uma brincadeira tipo eu x computador pra ver quem é que armazena mais, se foi a dor de uma perda, de uma meia, quase, para ser sincera, ou até a imaginação que anda de braços com a carência, às vezes. Pode até ter sido o inverno. Não duvido nada deste senhor. Aliás, eu tenho até uma tese de que o ar atmosférico, ou o clima do dia, nos traz à memória justamente coisas que se passaram em dias muito semelhantes. Pelo menos comigo é assim. Conforme sinto o clima do dia, temperatura, quantidade de luz, vento e sabe-se lá o que mais, me transporto àquele dia ou dias parecidos. E tenho que lutar durante o dia para que aquelas lembranças não se tornem mais nítidas, me atrapalhando o presente. Talvez no reverso desse verso, a tal da memória tenha feito o caminho oposto. Foi lá buscar, também pode. Vai saber dessas coisas de memória.

   Mas seja lá como e porque, estava eu deitada em minha cama, divagando no frio, antes de decolar para os ares de Morfeu, quando me veio uma tarde de verão em que estava com meu pai à frente de um clube – uma casa, tipo mansão, muito chique, com todo tipo de arabescos, redondos, musas, tipo aquelas casas de gente mui, mui rica que ficavam na avenida Getúlio Vargas, no Menino Deus, mas que poderiam ter estado na Paulista, ou na Old New York pras bandas da Washington Square. Era um distinto clube, a breguice ainda não tinha nascido, ou pelo menos conhecia o seu lugar, que certamente não era lá.
   Como uma câmera que vai se aproximando, a primeira cena que vi, como disse, era meu pai, de fatiota clara, daquelas que gringos com noção vestiam em visita ao Brasil. Eu era uma garota sapeca que ficava pulando daqui pra lá, enquanto conversava com ele. Altos papos, que sempre foram a marca registrada dos relacionamentos entre nós, a família de antes e a de agora. Adultos conversavam com crianças de igual pra igual, talvez porque os adultos nesse caso fossem umas boas crianças. A câmera avança e entendo que este é um dia de festa. Era uma formatura de alunos da escola de Música da minha mãe. Era o tempo da gaita, e dos vestidos longos, uma aluna mais linda que a outra, como princesas ou aquelas fadas-ninfas dos livros que meu pai me dava. A minha mãe usava um vestido rosa, de um tecido diáfano e um chapéu, de um tule com rosas, pois, como era a professora, achava que seu vestido tinha que ser mais discreto e o chapéu devia ser pela mesma razão. Lembro de uma guria, a que achei a mais linda, que tinha os ombros descobertos (talvez venha daí a minha fixação eterna em tomaras que caia), cujo vestido era uma mistura de azuis, rosas e roxos que iam se alternando. E ela tinha um sinal na “saboneteira”. E até um nome encantado, como Aretusa.
    Fiquei pensando no que é que meu pai estaria fazendo ali na frente naquela hora. Talvez recebendo os convidados, talvez uma pausa para um cigarrinho.
    Havia alunos de gaita e de piano, e lembrei que a paraninfa, para-ninfa, que não era bem isso, mas ficou assim na minha cabeça, a moça que faria o discurso dos alunos, estava toda de branco, inclusive com luvas, e algum brilho que não recordo aonde. Ela, talvez tenha sido a para-ninfa pois se formaria em piano e acordeon. E tocava piano lindamente, acho que era bem adiantada.

    Tentei ver, entre os convidados, os parentes, o público, quem de meus tios estaria lá. Não lembro de ter visto meus avós, não sei se a doença de meu avô se deu antes ou depois. Lembro alguns rostos sorridentes, talvez de minhas tias e tios, também não lembro da Bete correndo entre os corredores, devia estar em Ipanema. Com essa reconstituição fui refazendo a história da família. Quem já teria se casado, enfim.

     Em meio de todo mundo, lembrei de Luiz Carlos, um rapaz negro que se formava em acordeon e cuja mãe, seria Marina?, tinha o mais belo jardim de dálias de todas as cores, mas principalmente as fúcsias, e fazia o melhor, o supremo bolo de doce de leite com amendoim da minha vida. Um tempo em que as casinhas do Menino Deus eram de madeira, com alpendres, camélias, cachorros, crianças fazendo roda.

    Os meninos, em minoria, posavam para as fotos do lado externo das mesmas. E se não fosse a foto eu não teria me lembrado de tudo isso, acho, pois a foto perdurou no álbum, reforçando as imagens. Aonde andará essa foto?

     Havia a Dona Nilda. Grande professora de piano, e coitadinha, acho que era meio parecida com a Maricota dos quadrinhos. Na minha família, uma coisa que não era perdoada era a feiúra, eram todos muito bonitos. São... basta olhar pros dois bestas que eu tenho.
        A Dona Nilda, além de ser meio feia, era, segundo alguns, antipática. Já vejo minha mãe dizendo: credo, tão querida que ela é. E chata, pois logo ganhou o apelido de... chatonilda. Um pecado. Quando ela aparecia, e segundo os adultos nunca ia embora, já era praxe a Emília ou meu pai irem discretamente até a cozinha e pôrem uma vassoura de ponta cabeça atrás da porta.
     Eu, que tenho esse espírito terrível, segundo a minha mãe, e que nunca admiti mentiras, certa vez cheguei na sala e perguntei se já podia virar a vassoura. Na cara da professora. Acho que fiz de sacanagem.
     Capeta discreta, mas quem levava a fama de bad girl era a Bete, que escancarava.

      Voltemos à festa. Provavelmente a Bete estivesse lá sim, pois o Arcílio, meu tio, seu pai, era o grande fotógrafo. Não daqueles que pega uma maquininha e sai inventando. Não, naquele tempo nem existia isso. Ele era da pesada mesmo, era o fotógrafo do Brizola, e do carnaval de Porto Alegre, pra cima e pra baixo com Vicente Rao, o rei Momo, e chegou até a ir pelo governo a NY fazer curso, trazer técnicas, contatos, o escambau, e acabou fazendo todos os books da recém Petrobrás.
      E se o Arcílio estava lá, também o Ademar, que era o tipógrafo. Este, era um grande professor, antes atleta do Inter, chegou a diretor de uma das escolas da FEBEM, e todos o adoraram. O Ademar, que era o filho mais moço, era o braço direito de meu avô, o que o ajudava na tipografia.
       Se meu tio Carlos, o Padrinho, depois arrebanhou todas as revelações fotográficas da cidade, principalmente as da Casa Masson, aonde todos mandavam revelar, essa tipografia fazia praticamente todo o trabalho em Porto Alegre. A tipografia dos Porto Alegre. E, no caso da minha mãe, dali saíram sempre os diplomas e os certificados, convites, recibos, toda a papelada da escola.
      Certificados e diplomas eram o máximo, pois a minha própria mãe e meu tio Ademar escolhiam cuidadosamente todo o layout que estes teriam, com letras, cores, se haveria uma musa como a Columbia abençoando tudo em cima, o nome do aluno, ficava tudo lindo e perfeito.
      O único problema era que, como a minha mãe era a irmã, o meu tio meio que passava na sua frente aqueles clientes que não eram muito íntimos, e os certificados e diplomas não raro estavam ainda quentes da impressão ao passarem para as mãos dos alunos, enquanto minha mãe se escabelava até vê-los chegar.
     Quanto às fotos, o problema era que nem sempre eram entregues, e aquele evento, aniversário, casamento, formatura, muitas vezes ficava apenas na memória, o que não é verdade, mas chegavam às mãos dos interessados muitas vezes seis meses depois. Então, a gente sabia. Antes de tudo, tinha que se arrumar muita paciência.

     Não sei se foi dessa vez, mas creio que uma semana antes do evento, me lembro de todas as alunas e minha mãe em peregrinação pelo Menino Deus pedindo hortênsias. Por isso, penso que estávamos em dezembro ou janeiro. E o tal clube foi totalmente coberto com estas flores, com sua beleza e perfume.

    Também não sei se foi nesse dia que minha mãe trouxe a Dança para a sua escola, e de mão com o meu pai que me avisou da novidade, fiquei eletrizada ao descobri-la, entendendo imediatamente que era aquilo que eu queria ser. A bailarina dançava uma labareda, era a Dança do Fogo, a música acho que Prokofief, e sua roupa lembrava labaredas de fogo,sendo ela uma fogueira, a Marla, com L.
   
A Música

    Falei da beleza, mas nunca no sentido de hoje, e sim no dos gregos.
    Nasci numa casa e numa família que parecia viver dentro da Música. O meu avô era um grande músico: flautista, principalmente, mas manjava tudo. Além de ter tido cinema, de ter feito cinema, de ter levado filmes pelo Rio Grande, de ter tido livraria, um grupo musical, talvez uns quantos, tipografia, e de ter sido até goleiro. Mesmo depois de seu enfarte que o deixou paralisado de um lado e num desespero absoluto sem poder tocar, seus amigos músicos nos acordavam muitas vezes em serestas. Quem nunca viu, não sabe o que está perdendo. Uns quantos, uma dúzia mais ou menos de músicos, entre violinos, violões, cavaquinhos, flautas, bandolins, tocavam valsas e outras maravilhas. Suas lágrimas, as do avô, vendo-os, escorriam de pura beleza, e saudade. Os músicos, parece que brotavam entre as plantas do jardim de minha avó.
    Mas antes, quando meu avô caminhava, ele e meu pai tinham a mania de cantarem em dueto: Chão de estrelas, a sua preferida. E o gramofone, o toca-discos da época, mandava ver nos jazz e na música brasileira.

     Minha mãe inaugurou sua escola, o Instituto de Arte Musical, um ano antes de eu nascer, e a escola sempre foi em nossa casa. Antes de se espalhar em várias filiais pela cidade e até por cidades próximas. Desde pequena, nas tardes, pois nas manhãs a minha mãe era professora de música numa escola pública, e escolas públicas na época eram maravilhosas, a Música era matéria vivíssima. Nas tardes, a casa se transformava em escola. Havia aula de música não apenas na sala principal, como em salas ou quartos que não eram usados. Em geral havia pelo menos dois pianos e gaitas pra todo o lado. Partituras por tudo.
     Não é de estranhar que eu já aos dois ou três anos tirasse de ouvido até Chopin, e outros. Além disso, o rádio na época alimentava bastante o bom gosto musical. Não sei que fim levou a música boa, por falar nisso.

     A sensação que eu sempre tive é que o valor era medido naquela família pelo desempenho musical. Ser músico, música, era um compromisso que a gente traçava ao nascer. Nem me imaginava fazendo outra coisa.
    Claro que a Dança... mas a Dança é Música. Mesmo sem Música, digo a Música formal, pois o tempo todo o universo faz Música.
    Tanto que passei a infância e a juventude entre aulas de Música e Dança, e espetáculos. Como é que então a minha mãe queria que eu fosse outra coisa? Professora, bancária...
     E tanto que, depois de um tempo, cheguei à conclusão de que podia e devia unir as duas, em meu corpo, o instrumento definitivo. A Música, o som passava por ele e ele tocava. Eu já não conseguia mais segurar uma guitarra. Eu era ela.

      Hoje ouço jazz e busco raízes profundas em minha alma, a alma passada, que veio com essa maravilhosa família, e a alma nova que tá chegando, que me fará fazer parte de outro povo, um povo alegre, musical e dançante, como o nosso.

domingo, 25 de julho de 2010

Beat Me Daddy, Eight to the Bar

Bonecas de Papel

Acho que se me perguntassem qual o grande brinquedo da minha vida, iria vacilar entre brincar de palco, dançar, fazer shows, teatro e... as bonecas de papel. Tinha o brincar de mocinho, tinha as rodas, que adorava, tinha até caleidoscópio. Tinha tanta coisa linda!... Brinquedos de médico (não aquele), dentista, cirquinho, mágico!... Sem contar os inusitados, que apareciam com aquele tio aviador que trazia coisas inimagináveis dos Estados Unidos! Ainda tinha o de índio, quando chegava a data. Olha só: na escola, sempre, todos os anos, a coisa começando meio que uma semana antes do Dia do Índio, a gente tinha que sair a catar tudo o que pudesse e tivesse a ver com a vida numa tribo. Como sementes de cinamomo, que subíamos nas árvores para pegar, secar e transformar em colares e pulseiras. As galinhas, pobres, a gurizada já começava a olhar para elas com cara de vou pegar essas penas. Mas eu, particularmente, achava uma pobreza fazer cocares ou tiaras de simples penas de galinha. Achava que a gente tinha que conseguí-las de seres mais nobres, tipo algum pavão. Ou melhor, do tipo artificial e lindo, comprado de preferência em alguma loja. Não posso negar que a boa vontade era enorme, ao contrário do conhecimento. Os índios estavam muito mais para aqueles que apareciam nos filmes de cowboy do que para legítimos selvícolas regionais. As professoras, mais preocupadas com que conseguíssemos aprender o que de fato interessava, como os nomes dos grupos: tabajaras, tupis, guaranis, entre outros, e sua localização geográfica, deixavam passar esse pequeno lapso. Contas recém pintadas secando, começava outra parte: a montagem de verdadeiras tabas, mini tabas, pela casa. Agora, em vez das tradicionais casas de bonecas, nossa dedicação voltava-se à criação e curtição de ocas, árvores, redes, cenários nos quais situações pudessem ser vividas, montes, florestas, incluindo até pirogas em beiras de rios de espelhos (knowhow que vinha do presépio natalino e sempre me encantara sobremaneira), e desse modo brincávamos por pelo menos uma semana. Gostávamos de montar nossas construções na sala do apartamento da Bete, embaixo do piano ou da mesa.

Era tudo maravilhoso, mas... a boneca de papel, um caso à parte. Havia uma coleção, a minha preferida, na qual cada boneca vinha com um enorme álbum. Quase do tamanho de um livro, e com muitas roupas e acessórios para a boneca poder viver muitas cenas cotidianas. Um sem número de trajes de passeios, uniformes, roupinhas de pescaria, tênis, praia, festas, e tudo com o glamour dos anos quarenta e cinquenta. Bonecas meninas e bonecas adolescentes, e até um bebê, a Cristina, me lembro, que vinha com tudo o que um bebê precisa (na corte da Sissi...). As bonecas vinham ainda com seus brinquedos, cachorros, casinhas de bonecas e livros. E a perfeição maior residia no fato das roupas e acessórios não serem desenhados, e sim fotografados. Como um figurino que aparece numa revista Vogue, por exemplo, como se a gente o pudesse recortar.
Essa coleção tinha umas vinte bonecas, e para conseguir grana para cada álbum, a gente suava. De vez em quando, minha avó, apiedada de mim, dava um jeito de conseguir o dinheiro que faltava para algum, principalmente quando eu já estava quase no finzinho de completar a coleção, refeita a cada seis meses em média, já que papel... bem, não era incomum que, num descuido qualquer, e sem nenhum motivo político, alguma fosse decapitada.
E porque as bonecas eram pequenas, podíamos pegar revistas de decoração e fazer, daquelas salas, quartos e cozinhas, as casa das meninas. A minha avó recebia revistas americanas e alemãs, com propagandas de jóias, fotos de beldades do cinema, cadillacs e novidades, que iam direto para o universo das bonecas de papel.

Certa vez, ganhei de aniversário duas enormes bonecas de papel. Vinham em enormes caixas e tinham imã... que as prendia às roupas, as quais já vinham recortadas. Diferente da outra coleção, que a gente tinha que recortar roupinha por roupinha, e até a boneca. O que garantia uma graça toda especial, pois parecia que a gente estava dando vida à cada coisa daquelas.
Até hoje, antes de sair para uma balada, gosto de montar a personagem com o seu figurino. E, principalmente, as bonecas me fizeram, talvez pela primeira vez, reparar nos arquétipos, nas peculiaridades de cada uma e nas diferenças entre elas. Hoje, com o conhecimento que tenho, posso dizer que cada uma remetia a uma deusa, fazendo com que, de quebra, eu percebesse semelhanças com o meu próprio eu, desse modo me conhecendo melhor, entendendo minhas escolhas, meu mundo, meu caminho. A personalidade da boneca determinava se ela seria do tipo que dá mais valor à leitura ou uma amazona, se gosta mais de sol ou da noite.
Eu brinquei de boneca de papel até quase os meus doze anos. Aguentando paciente, embora um tanto desconfortavelmente, as críticas da Bete, que já se achando uma mocinha, mesmo apenas um ano mais velha, e se exibindo com seu primeiro sutiã, me tinha como ridícula e retardada, quase um caso perdido. Ia a festas e já ensaiava uns namoricos. E eu, embora incomodada, seguia o meu destino. Achava que a minha fase da infância ainda tinha o que render, e as bonecas eram irresistíveis.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Palhaçada (Miltinho e Elza, aí ao lado)

A Cozinha

O Cinema tinha três sócios, mas o idealizador era o Arcílio. Os outros eram o meu outro tio, o Padrinho, e um amigo dele, que, na verdade, acho que só entrou na sociedade por isso.
O Padrinho era o tio próspero; na época, em vias de. Nas festas em sua casa, quer dizer, nos aniversários (naquele tempo todo mundo comemorava cada aniversário), eu e a minha prima Bete – onipresente coadjuvante nessas histórias e filha do Arcílio –, como dois gatos espertos e vagabundos, perambulávamos em busca de novidades. Na sala, duas rodas separadas: homaredo de um lado e mulherio do outro. Palavras que soavam horrorosas aos meus jovens ouvidos, e ainda hoje, e que me davam vagamente uma idéia daquilo que justamente queriam nos proibir. Era pós-getulista, o Brizola a mil.
Então, como qualquer criança, oscilávamos entre esses dois grupos, pescando daqui e dali algo interessante, as roupas das mulheres, os salgadinhos e eventualmente uma roubadinha de cerveja no copo de um pai mais liberal, um passeio pelos outros cantos da casa, até a entrada do prédio, da qual às vezes vínhamos gritando anunciando a chegada de alguns convidados.
Meu tio era advogado e homem de negócios. Estava entrando no da fotografia, porém mais como comerciante mesmo, e tinha um fascínio de novo rico por tudo quanto era maquinária. As novidades chegavam ali primeiro, como o primeiro gravador, enorme, daqueles que comiam fita. Coisa inimaginável nos dias de hoje. Ah!... a pré-história da informática... E para receber todas as máquinas e artefatos, havia um quarto, que na nossa imaginação era meio secreto, já que, somando-se àqueles objetos, exalava cheiro de papel com formol e, em seus armários fechados, poderia esconder muito material proibido, leia-se sexual, na nossa cabeça, algum pecado de família, uma prancha de surf, que só apareceria anos depois e até um filho morto, pois havia boatos sobre isto ter acontecido.

As casas começavam a ser preparadas de véspera, com uma grande limpeza. Sendo a cera, uma das estrelas principais. Depois de passada, tinha que secar. Durante certo tempo então, todos que caminhassem por ali, teriam que fazê-lo na ponta dos pés. Um tempo depois, tudo liberado, ou melhor, muito melhor, como não havia enceradeira, era obrigatório “puxar o brilho” com um pano sob os pés. Ou sob as nossas bundas, que nos deliciávamos em subir num desses e escorregar e rodopiar pela sala, impulsionadas pelos próprios corpos de uma parede à outra.

Após essa fase, vinha a preparação da comida. Sobre a mesa da sala, da cozinha e sobre as prateleiras, e às vezes até pelas penteadeiras dos quartos, iam se empilhando os salgadinhos e os doces que o refri não dava conta. E a graça da cozinha na noite da festa, era que ali ficava o povo mais divertido, o mais simples. Os que adoravam beber, comer e contar algumas piadas impróprias. Mas que comparadas a qualquer coisa hoje, a gente ri mais do que das próprias. Além de, de vez em quando, baixarem a voz para contar algo engraçado e suspeito dos que estavam na sala. E só sacaneavam os que mereciam.
No comando do banquete, a minha Madrinha Lourdinha, pisciana que adorava uma cachacinha e tinha um humor de fazer inveja ao Ary Toledo. A Madrinha tinha uma amiga baiana, que casualmente era a cozinheira da minha tia, a dona da casa, e as duas ficavam horas inventando receitas e trocando figurinhas. A Nair, além daquele astral meio largado de baiano, que fica cutucando gaúcho, que aliás, todos ficam nos cutucando, fazia umas empadinhas de massa podre, que certamente fariam Babette se emocionar. Cerveja, a mais gelada, e também franqueada a nós com menos falsos moralismos, principalmente porque não bebíamos; um gole bastava para nos deixar enjoadas e voltar fervorosamente para o guaraná ou para a gasosa. Ali também, os outros criados das casas, os que moravam com seus patrões, ou algum ajudante do meu tio. Todos muito perspicazes, nada do embotamento e da falta de assunto que se vê hoje.
Cada casa tinha as suas manias, o seu dialeto. Nesta, pelo fato da minha tia ser originária da colônia alemã provavelmente, havia muitos picles sobre os armários mais altos. Picles eram engraçados, pareciam peixes boiando, e eu não entendia como poderia haver quem os comesse. Adultos eram esquisitos, gostavam de cada coisa!...

Do fogão, na festa, saiam direto os salgadinhos mais crocantes. A cozinha era um lugar quente de calor humano e divertida de sabores. Talvez, para mim, a semente do que viria a ser depois o bar. Espaço de confraternização, o ensaio da liberdade. A gula da vida.

Ao lado, o Miltinho e a Elza, que não me deixam mentir... sozinha, diria - sempre, e até hoje ecoa - a Madrinha.

domingo, 25 de abril de 2010

Com o desenho do Poko (ao lado).

  Fazendo uma pausa para apresentar o...
          Antonio
             

Como falar do Antonio sem postar uma foto aí ao lado? Mas não posso deixar de falar no Antonio. Um solzinho que me aparece todos os dias de manhã, e que me acorda com sua voz de gato (já viram como as crianças parecem ter voz de gato, além do óbvio vice e versa?). Antonio foi "a luz que me alumia" nesses últimos anos de pura solidão que me deparei quando Vavá arribou do ninho. Tava duro, sangrando, quando descobri, ali no quintal do lado, o Antonio. Loiro e apaixonante, como o Vavá. Tinha dois, e ainda usava fraldas. Inventador e muito, muito simpático. Preocupado com as minhas coisas: "e o casamento do teu filho?", "e o gatinho?", claro, apaixonada que sou por esses pequenos seres (my people!), cachorros-crianças e crianças-cachorros, me rendi aos seus encantos.
No dia das Crianças, levei pra ele um dvd do Poko. Sabe o Poko e o Minus? Se não sabe ainda, procure e dê para seu filho ou criança de plantão por aí (preste atenção na "claque" do seriado/ aí no vídeo).
Outro que gosto nessa faixa é Connie, a Vaquinha. Super ecológico, mostra um tremendo respeito pela Natureza.
Esses dias, Antonio ganhou um cachorro. Que há horas eu dizia: criança tem que ter cachorro! Não um desses que a gente prefere, um bom vira lata que tá sozinho nesse mundo cheio de perigos. Ganhou um de raça, mas... uma gracinha, pequenininho, do tamanho do Antonio, que agora tem três.
Mas o que eu queria dizer é que, do encontro dessas adoráveis criaturas, não poderia dar coisa melhor: Antonio tá aprendendo a latir!...

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Leia meus blogs sempre de baixo pra cima, iniciando em "posts mais antigos". São crônicas, não-datadas. Sugestão: vindo de baixo pra cima, tem sempre um vídeo com excelentes músicas e músicos ao lado de cada post, com o subtítulo da própria. Delicie-se!

domingo, 31 de janeiro de 2010

     A história continua... mas agora estou ocupada com outra baita história que tá acontecendo bem aqui na minha frente. A história é a História e é o presente. O Marcelo, afinal, é sobrinho-neto de toda aquela turma do Cine Ipanema. E seu bisavô, o Alcebíades, já fazia cinema a carvão, vejam só. Indo de cidade em cidade por esse Rio Grande. Oigalê!
     Bem vindos novos amigos.
     E aí a foto que não me deixa mentir (sozinha...). Marcelo e o Vô Bido. Aquela de trás é a Ena, avó do guri.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

What a Wonderful World

A Casa da Tia Idalina

Daí que a Idalina, a irmã da minha avó, resolveu comprar uma casa no morro. Morro de Santa Teresa. Acho que alguém, ou todo mundo, deve ter argumentado, tentando fazê-la mudar de opinião, afinal, embora logo ali, a apenas algumas quadras da casa de meus avós, o morro era perigoso. Havia poucas casas, quase que pura mata, muitas malocas – a maioria dos moradores eram os pobres, os negros, naquele tempo.
E se o canto dos pássaros hoje, ainda, é um desbunde, imagine então. Aliás, não raro fico imaginando como seria ouvir a Amazônia original, quase insuportável...
Na casa moraram, num primeiro momento, ela e sua neta mais moça. A filha viajava bastante com o marido, embora de vez em quando chegassem a passar um bom tempo lá. Quando estava o casal, era tudo diferente, outro clima. Nos domingos, a casa abria-se para amigos e parentes, entre eles, meu pai e minha mãe. Muito samba, muita cachacinha, muito papo interessante, uma coisa que parecia ser até comum na época. Fazia calor, e a vida, exceto por aquela vez em que por acaso descobri a existência das urtigas, era pura alegria. Muitas piadas, muita política. E comida de primeira.

As outras lembranças fortes da casa eram, ao contrário, as das frias noites de inverno, quando eu e a Bete lá dormíamos. Nas ruas, não mais que fracas e amareladas lâmpadas, que tremulavam, insinuando possibilidades de brilhos de punhais e de assassinos à espreita.
Era logo ali, mas a sensação era a de viagem, pelo interior ou pelas florestas de algum conto de fadas.
Um vento sempre presente circundava a casa e gemia, envolvendo-a em fios de prata e medo. E a Idalina, fixando aterrorizados olhos de criança em algo além das vidraças, ordenava, num quase sussurro: Olha! Escuta! Com tal aflição e espanto, que a nossa impiedosa imaginação, acatando-a, fazia crescer do lado de fora enormes mãos esquálidas e famintas, corpos e cabeças que se metamorfoseavam, ora nos ameaçando, ora tentando nos puxar e levar sabe-se lá para onde...
E, se por um lado quase tentadas abríamos a porta, no talvez derradeiro vale-tudo com o que estivesse espreitando, por outro, o medo de que tudo-aquilo-fosse-mesmo-apenas-a-nossa-imaginação nos congelava. E tomávamos a decisão mais sábia, a de nos enfiar pelas cobertas, aos gritos e quase risos, tremendo de medo, de todo medo que sabíamos fingir.

Acordávamos com um ventinho frio e amigo, que nos convidava para um dia de aventuras. Na cozinha, a Idalina já nos esperando com o café ou chocolate (eu admirava as casas em que os adultos davam às crianças a opção do chocolate, coisa meio rara ainda na época), e com outras gostosuras: pães de trigo ou de milho feitos em casa, umas ou duas qualidades de chimia, também feitas em casa, ou um doce de leite vindo do Uruguai. Às vezes, um queijinho especial da colônia, ou bolinhos. Na porta da cozinha, que dava para o pátio, outro vento, agora frio e seco, sério e respeitável, garantia de que a manhã seria cheia e que estávamos em segurança, longe das loucuras da noite. Lembro que, num costume que tenho até hoje, parava por ali um momento para tomar sol. Sol e vento fresco do morro na cara. Que delícia!
O pátio era descomunalmente gigantesco, tinha até uma sanga. Cana de açúcar e pé de milho. Gatos, cachorros, galinhas e até um porco. Além de algum agregado, um ex-morador de rua, meio ex meio ainda pau dágua, que por ali ia ficando e fazendo pequenos serviços.
Depois de uma não muita longa exploração nos fundos do terreno, voltávamos e ficávamos ali orbitando a casa e a Idalina, que parecia um sol.

A Dindinha, como era chamada, havia sido professora e, segundo histórias familiares, teria, pessoalmente, e a lombo de burro, levado as tábuas e construído a sua escola. Como a minha avó, filha de alemão, de Berlim, homem culto, ou apenas o normal praquelas bandas, que havia proporcionado a melhor educação para suas filhas. Ambas falavam um português corretíssimo, com pronomes oblíquos e todos os erres e esses possíveis.
Ela era tão popular naquela região de Estrela, Lajeado, Arroio dos Ratos e São Jerônimo que, nas vezes em que a acompanhamos em pequenas viagens, pudemos constatar sua popularidade na quantidade de pessoas que nos ofereciam suas casas, traziam presentes ou nos convidavam para um lanche. Ela era madrinha de tanta gente que me lembrava, de alguma forma, o Brizola, que também era outro muito bem recebido pelo povo.
A Idalina, que com o casamento passou a ter o sobrenome de Pinto Bandeira, era, pessoalmente, heroína de muitas histórias engraçadas e maravilhosas. Quando o Prestes passou com a sua Coluna pela cidade onde morava, ela adorou a idéia do comunismo e por conta disso subiu no palanque a fazer discursos. O que a levou a passar alguns dias na prisão local... Fico pensando na terrível crise de consciência pela qual deve ter passado o delegado que a prendeu, quem sabe seu compadre...

Quando ela andava pelas ruas, demorava muito para chegar ao destino, se é que tinha mesmo algum. Para mim, ela, já muito antes de alguém sonhar com a tal Era de Aquário, seguia alguma filosofia oriental que diz que “o caminho é enquanto” ou algo assim. Pois ia parando em cada casa na qual vislumbrasse uma folhagem ou alguma flor bonita, até que alguém viesse se apresentar. Animais então, nas casas ou na rua, eram sempre parados e afagados. Anos depois, dava o mesmo tratamento aos nossos namorados, beijando-lhes a face, por muitos minutos, em beijos estralados e com muito estardalhaço. No início, ficávamos com um pouco de vergonha, depois, como não houvesse queixa, e aquilo fizesse com que os rapazes logo abrissem seu coração e mostrassem um insuspeitado lado sensível, e risonho, assistíamos de camarote, nos divertindo muito. A impressão que eu tinha é que se houvesse alguém muito mau, por pior que fosse, um terrível facínora mesmo, naqueles braços e naqueles beijos, se converteria.

Era uma contadora de histórias nata, daquelas que acredita na própria história, uma loroteira de primeira, legítima e da melhor qualidade.

Por acaso, hoje seria o aniversário da Idalina.

terça-feira, 14 de julho de 2009



As mafiosas...

domingo, 12 de julho de 2009

Você Já Foi à Bahia, nêga?
A Televisão

Não era nenhum lcd modelo xpt56vkl54 panorâmica widescreen e sabe-se lá quanta coisa mais que vão inventar ainda. Era apenas um lençol branco, de casal, de minha avó, na parede do quarto grande, com a ampla janela que dava para o jardim em sua plena exuberância de belezas e cheiros de verão. Mas me lembro até hoje do silêncio, comoção e reverência provocados no pequeno público quando aquele mágico e inusitado espetáculo começou. A “platéia” – os vizinhos, a criançada da rua e a família – foi improvisada com as cadeiras que havia na casa e com as que o público trazia das suas. Eu adorava quando os vizinhos – pessoas simples das redondezas – entravam na nossa casa; naquele tempo, vizinho era um diminutivo carinhoso (hoje é vizinhos, bah... com raras exceções).

Bem cedo na tarde, eu devia estar brincando pelo quintal, percebi uma movimentação. Meu Tio Arcílio estava aprontando uma das suas. Lembro dele equilibrado numa cadeira sob os olhares – e os palpites, claro – da minha avó, e, mais tarde, arrastando o projetor e aqueles enormes rolos de “fita”, como ele chamava.
Todo mundo bem acomodado, silêncio... e... MILAGRE! Na tela, roubando a cena e o meu coração... ninguém menos do que Pato Donald e Zé Carioca. Claro que amor à primeira vista, e para sempre (não importa o que dissessem depois meus amigos comunistas, nunca consegui ver o Pato Donald como um agente infiltrado da CIA). Adoro as suas implicâncias e a total falta de paciência. E não “apenas” (a penas) eles. Entre meneios, requebros e balangandãs, surge Aurora Miranda e o Bando da Lua!
Eu tive a exata sensação de andar por aquelas ruas, no filme do Disney, e acho que é isso que o cinema faz, ele nos transporta para dentro da tela. Saí de lá cantando o Você Já Foi á Bahia, e acho que nunca mais parei (de cantar). Naquela noite, quase que não consegui dormir. Durante vários dias, eu só via aquela tela, só queria voltar a viver aquela emoção.

Outros filmes vieram e o lençol tela por diversas vezes foi estendido embaixo da parreira.

O cinema era levado muito a sério na família. Muito antes de se mudarem para Porto Alegre, meu avô teve cinema, em São Jerônimo, e com dois de seus filhos saia pelas cidades vizinhas a espalhar felicidade pelas grandes e pequenas telas. Um tempo depois, meus tios resolvem, então, abrir o Cine Ipanema.

Mas... afinal... você já foi à Bahia?... Não?... Então vá. (olha a delícia do link aí ao lado)
(desça depois até os links de baixo e conheça o "Zé Carioca")
sugiro ainda dicionário cravo albin da mpb/ aloysio de oliveira/ dados artísticos (não consegui linkar)

domingo, 5 de julho de 2009


Chatanooga Choo Choo

Pim Pam Pum

Pelo que me lembro, a televisão chegou devagarinho, começando com um período de testes, em que ficava horas com o logotipo da Piratiní – um índio no meio de uma espécie de disco – em stand by, com música ao fundo. Quando entrava no ar, era por algumas horas, e em geral a partir da tardinha, com um jingle característico, que até hoje ecoa na memória.

Quando a coisa já estava a todo vapor, entrou no ar um programa infantil: o Pim Pam Pum.

Que eu nem imagino se já houve similar em alguma época no mundo, um baita reality show: uma criança do público, depois de sorteada (muitos programas locais com audiência), poderia, em meio a um cenário que lembrava uma loja de brinquedos, e antes que soasse um alarme, pegar quantos brinquedos pudesse!!!...
As prateleiras eram atopetadas por todo tipo de brinquedo, dos menores, passando pelos jogos: cartas mágicas, ludo, dama, jóquei, dentista, médico, de química, mágico (que o guri ganha na “Era do Rádio”, do W.Allen), até a boneca Amiguinha e uma bicicleta! Desnecessário lembrar que naquele tempo... não havia televisão! Então, a nossa vida, a vida da gurizada, girava justamente em torno dos brinquedos: dos de rua e dos de casa. Quer dizer, conhecíamos todos os jogos e torcíamos para que a criança sortuda os pegasse; a boneca Amiguinha, então, nem se fala – era o sonho de toda a garota. Quase do tamanho de uma, e só faltando falar – como dizia a propaganda. Bicicleta, um sonho! complicado... não havia como pegá-la com o restante, pois ela não podia tocar o chão, era a regra. Se alguma criança tivesse conseguido segurá-la, junto com uma quantidade razoável de jogos e mais alguns pequenos brinquedos, equilibrados, a essa altura, na cabeça, teria certamente virado herói. E não duvido que o moleque que tenha conseguido realizar a façanha, se é que houve algum, não tenha sido carregado nos braços da turma morro abaixo. A indústria nacional dos brinquedos ainda era incipiente, não era muito comum tê-los. Nada comparado a essa onda consumista que hoje varre o país. Aliás, o jingle era: Pim Pam Pum, Estrela... (adivinha)

Pim Pam Pum, para mim, muito tempo depois, é um exercício, consumista, claro. Já me imaginei dentro de um super mercado, depois de uma apitada, correndo para a prateleira dos vinhos franceses, depois para os whiskeys, quem sabe logo a dos brinquedos, ou a dos cristais, ou ainda a dos queijos finos. Numa livraria! Em loja de departamentos, locadora, cruzes!...
No programa original, tudo era uma questão de equacionar o tempo com o quê se poderia agarrar com as mãos. Usar o cérebro, bolar estratégias, treinamentos!!!
E obstinados, disciplinados e esperançosos, passávamos horas treinando, combinando velocidade com o malabarismo de não deixar nada cair.
Poderia pegar dez jogos e passar muitos meses, feliz da vida, tendo o quê fazer, ou ir direto na bicicleta, com a qual daria inumeráveis voltas pelo Menino Deus...
Nos irritávamos um pouco com as crianças pobres que eram sorteadas e ficavam com cara de bobas. Parecia que nem conheciam os jogos... Tanto que a direção da tv deve ter se dado conta e decerto, por isso, parou de sortear coisas para as crianças pobres.
(Macabéa tu só sabe chover!...)

Por várias vezes na vida percebi que havia sido sorteada no Pim Pam Pum (que aliás, nunca fui, fora da imaginação): deveria namorar o cara rico, bonito e de futuro, mas tão chato... ou assumir o feinho, inteligente e divertido? Ir no fim de semana com aquele pessoal pra Floripa, ou ficar com o namorado inteligente e divertido?... Abrir mais um espaço cultural em Porto Alegre, permanecendo perto da família e assim poder criar meu filho num ambiente tranquilo, ou me largar pra São Paulo ou Rio pra deslanchar a carreira?... O quê se larga teria valido mais a pena segurar, ou o quê se segura não vale nada? Tentei aprimorar o malabarismo, ficando com dois ou três namorados ao mesmo tempo, trabalhando em duas cidades diferentes, e assumindo várias formas de expressão na arte. Algumas vezes, pelo olho grande, vi tudo desabar; em outras, me diverti pra caramba. E aprendi que, mais importante do que pegar ou manter um brinquedo, é a própria brincadeira de tentar. Tentar não esquecer de arriscar, de brincar.

segunda-feira, 22 de junho de 2009


Moonlight Serenade


A Era da Televisão

    Primeiro chegou o aparelho, meio escondido dentro de um móvel com portas, que – como enfatizou bem o Padrinho, enxugando o suor da testa, ao depositá-lo no chão com o seu ajudante – deveriam permanecer fechadas, sempre que não houvesse alguém o assistindo. Talvez preferisse mesmo ficar escondido por ser tímido e jovem, e um tanto constrangido por figurar entre os já bem acomodados móveis da sala dos meus avós. De início, ficamos olhando aquilo com a estranheza dos primeiros primatas que presenciaram o surgimento do fogo, ou daquele obelisco no 2001 do Kulbrick. Por via das dúvidas, os velhos deixaram-no ali, quieto, fingindo nem vê-lo. Afinal, ainda não sabiam bem com o quê estavam lidando.

Nós, as crianças, porém, e principalmente a irrequieta Bete, com a curiosidade natural dos que não têm compromisso com coisa nenhuma, começamos a sondar o estranho artefato.

Lembro que, numa tarde chuvosa, em que estávamos todos por ali, alguém, não recordo direito quem, falou: – Olha ali, a gente bem pequenininha, parece que estamos dentro da tv. E, dali em diante, começamos a nos divertir com o reflexo de nossas vidas no vidro, narrando o que estava acontecendo de fato, misturado com algumas invencionices para dar mais graça.

Meu avô – um grande flautista, escritor, dono de cinema e passador de filmes pelas cidades do interior gaúcho –, que havia ficado semiparalítico depois de um derrame, mas que mantinha uma imaginação sempre acesa, já havia decidido que, além da completa fidelidade ao rádio, a sua televisão continuaria a ser a enorme janela, onde se postava diariamente observando o quê acontecia e quem passava pela Silveiro.

O que não era pouca coisa, considerando que por ali subia e descia quase todo o povo do morro, com seu jeito e colorido peculiar, o pessoal do entorno, claro, jogadores de futebol, já que à frente ficava a antiga sede do Colorado, os Eucaliptos, e, pouco tempo depois, até grandes artistas nacionais e o próprio Presidente da República (esses últimos de carro, evidentemente) em direção à primeira emissora – a TV Piratini – lá no alto da rua.

Voltemos, porém, à simpática salinha. Quando víamos a vida, a simples vida, no vidro do aparelho, era como se a víssemos através de uma bola de cristal, só que no tempo presente, mas tão mágico quanto. Parecia história. Quando estávamos em plena brincadeira e chegava alguém, era uma gritaria. A pessoa passava a fazer parte do “filme”.

Quando os adultos não estavam por perto e nós ficávamos ali, frente a frente com ela, partíamos, em expedição, tentando decifrar o mistério da caixa de válvulas. Afinal, mesmo ainda muda daquele jeito, dava pra sentir que prometia, que algo estava para acontecer, um mundo de maravilhas, como o espelho de Alice. Os adultos, distraídos por bobagens, como sempre – menos o meu avô, que sempre foi ligado no que interessa –, não se davam conta. A nós, cabia fuçar. Ouvíamos, cheirávamos, apagávamos e ligávamos mil vezes o aparelho, observando atentamente o seu interior, o esqueleto exposto, e nada...

Não sei se a coisa demorou tanto, que se chegou a perder as esperanças. Mas sei que quando as primeiras transmissões finalmente entraram mais ou menos regularmente no ar, percebemos que havíamos sido logrados: o aparelho era uma porcaria. E como os adultos ainda suspeitavam que afinal a tal da televisão pudesse não ser aquilo tudo, a possibilidade de um novo aparelho sequer foi levantada. Acho que meu padrinho dessa vez iria se assegurar das chances daquilo funcionar antes de se jogar numa nova aventura de consumo. Então, com o defunto ali e sem solução – afinal, quem é que se interessaria por aquele trambolho? – a Bete teve mais uma de suas brilhantes idéias: que tal tirar aquela parte inútil das válvulas e fazermos dele um teatro? Como costumávamos fazer nosso teatro de sombras, com lençóis e lanternas...

E assim foi feito. Arrebanhamos todos os “atores” que pudemos pela casa: as marionetes feitas de papel machê, bonecas, bichos de pelúcia, coisas da casa, como caixas de fósforos, a lanterna do antigo teatro, etc. O público, como sempre, era composto pelos pais, avós, tios e visitas.

Ficamos de donas da telinha até a chegada do novo aparelho. Então, a Televisão começou mesmo a acontecer.

Meu avô, no entanto, nunca traiu o rádio; e, depois de algumas tentativas, voltou-se com fé renovada, e definitivamente, àquele.



Manhattan
Primeira chamada

Quando os acordes de Manhattan, no piano de Carmen Cavallaro, iniciavam, sabíamos que a sessão estava para começar. Um pouco antes, pelos alto-falantes que levavam as músicas por quase toda Ipanema, já haviam desfilado as grandes canções de Glenn Miller, Tommy Dorsey e outras Bigbands. Sendo que, em geral, tudo começava com Moonlight Serenade. Esta, avisava que em meia hora, mais ou menos, estaria se iniciando a primeira sessão no Cine Ipanema.
Para nós, era a deixa para largar os balanços. Em pouco tempo, o carro de meu padrinho, trazendo a minha linda mãe e a família, todos muito elegantes, apareceria, estacionando em frente ao cinema.